segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Rebeldes e moradores de Trípoli divertem-se em avião de Gaddafi

O avião privado de Muammar Gaddafi, um gigantesco Airbus A340 com quatro turbinas, reflete o conforto da vida levada durante décadas pelo multibilionário ditador.

A Folha esteve ontem dentro do avião, estacionado no pátio do aeroporto da capital, Trípoli, momentos depois que rebeldes aproveitaram o fim dos combates no local para forçar a porta e finalmente entrar no jato.

A suíte fica na parte dianteira e ocupa cerca de metade da cabine, cheia de espelhos com moldura dourada.

A parte reservada a assessores se parece com a classe executiva de aviões comerciais. As poltronas de couro cinza são largas e confortáveis. Em uma das mesas da cabine havia sacolas de papel de grifes como Dolce&Gabbana e Chanel.

Na tarde de ontem, vários rebeldes circulavam, ao mesmo tempo fascinados e incrédulos, pelos corredores do avião. Tiravam fotos sentados na cabine de pilotagem e formavam rodas de conversa nos sofás.

"Olha o que esse cachorro do Gaddafi fazia com o dinheiro do nosso povo", dizia um adolescente, revirando armários do avião.

O Airbus não sai do chão desde março, quando a ONU decretou área de exclusão aérea na Líbia para impedir que os caças de Gaddafi bombardeassem os rebeldes.

PARQUE DE DIVERSÕES

O fascínio dos líbios com as condições de vida de Gaddafi também é visível, em escala muito maior, em Bab Al Azizia, o complexo que servia de residência e sede do governo do ditador, tomado na semana passada pelos combatentes oposicionistas.

O local desde então tornou-se uma espécie de parque de diversões, que atrai a cada dia centenas de líbios, incluindo famílias com crianças. É difícil saber em qual das casas de Al Azizia o ditador passava mais tempo.

As residências estão castigadas pelos bombardeios da Otan e pelos combates dos últimos dias, mas a opulência ainda é visível.

Os quartos são amplos e têm mobília de luxo e banheiras de hidromassagem. Há cozinhas industriais, piscinas e depósitos.

Boa parte dos objetos pessoais foram saqueados, mas os líbios que visitam o local ainda encontram, em meio aos escombros e cinzas, alguns pertences do ditador e familiares.

Ontem um homem carregava para fora de uma das casas roupas femininas e um intacto álbum de fotografias pessoais de Gaddafi com diversos líderes estrangeiros nos anos 70.

TÚNEIS

Muita gente circula pela galeria de túneis subterrâneos cuja existência era cogitada, mas nunca havia sido comprovada.

Os túneis, espaçosos e feitos de concreto, formam um labirinto que liga os vários pontos do complexo.

É dado como certo que as galerias levam a pontos estratégicos da cidade, como hotéis e aeroportos, mas há receio de se aventurar em canalizações escuras e que possivelmente estão repletas de armadilhas.

"Sinto que estou em outro mundo", disse à Folha a estudante Wafa Ayad, 20, ao caminhar pela grama verde e delicada que contrasta com o cenário árido do restante da capital da Líbia.

"A polícia não nos deixava sequer parar em frente aos muros do complexo, e agora estamos aqui dentro, vendo como Gaddafi vivia enquanto o povo estava na pior", afirma ela.

O pai de Wafa, Hussein Ayada, 50, emenda: "Quando a hora chegou, não houve barreiras nem riquezas que protegessem o tirano".

Rebeldes e moradores de Trípoli divertem-se em avião de ex-ditador Gaddafi

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