Meio ambiente: podemos fazer alguma coisa?
Isabel Mendes Silva - Publicado em 27.05.2008
Estamos atravessando um momento delicado na história da humanidade. A interdependência, fruto da globalização não uniu apenas as tecnologias de informações, fluxos de capitais e pessoas, mas também globalizou os problemas enfrentados pelo homem e que não há como negar que foram causados por ele mesmo. Em meio a uma diversidade de culturas e sonhos é inevitável admitir que somos uma família que deveria ter o único propósito ou o mais importante neste momento de caos, salvar "nossa casa".
Mas os "donos" do poder não foram sensibilizados o suficiente para perceber que algo tem que ser feito agora. Cuidar do meio ambiente deixou de ser trabalho pra quem não tinha o que fazer pra ser ato de coragem e principalmente ousadia para enfrentar grandes empresas em favor e em respeito à natureza e ao homem de bem. Assim, reza a carta da Terra que além de garantir a generosidade e a beleza da terra para as atuais e as futuras gerações é preciso cuidar da comunidade da vida, com compreensão, compaixão e amor. Isso significa aceitar que com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas agora e futuramente. É o que podemos chamar de desenvolvimento sustentável. Para Boff, teólogo, e grande defensor da natureza "a nova questão hoje é: que futuro tem o planeta terra e que futuro tem a humanidade?". A resposta mais aceitável para esta pergunta está no simples ato de entender que deveremos partir de uma educação ecológica, basta abrir os olhos, os ouvidos, abrir as mãos, fazer passeios ecológicos, cuidar das águas, das praças, dos animais. Daí começa esse novo desafio que é aprender a cuidar e respeitar o meio ambiente.
Um dia desses voltava pra casa na hora do almoço com um sol escaldante, típico norte-mineiro. Caminhava "sozinha" no meio de toda aquela gente, correndo pra ganhar o dia, coisas que acham que só acontece nas grandes cidades, enfim. Analisando minha própria existência rua a fora por instantes até orgulhei-me das minhas conquistas. Isso não é se sentir melhor em relação às outras pessoas, mas é uma vida sofrida de quem começa o dia das sete da manhã até a madrugada do dia seguinte, tudo pelo trabalho e pelo estudo. Observei um jovem aparentando uns 19 anos jogando o papel do seu picolé sem nenhum remorso na rua. Vi aquela cena e fiquei pensando, afinal um papel a mais na rua não faz tanta diferença assim, entretanto, isso é pra quem não ama e não sente o que estamos perdendo, um meio ambiente saudável. Pra quem ousa levar um mero papelzinho de bala por quarteirões na esperança de encontrar uma lixeira sequer, sente tristeza em ver um ato, digamos tão simples quanto este, mas que pode tornar um grande problema se cada um tiver a mesma atitude. Lembrei-me quando entre amigos, uma vez que sempre achei as conversas muito produtivas, desta vez alguém teve a infeliz idéia de dizer que meio ambiente está na moda, ora, tinha a resposta na ponta da língua, mas exitei. Porque uma pessoa em sã consciência entenderia que discutir e agir em prol do meio ambiente não está nas passarelas e muito menos na moda, isso é banalizar uma questão muito grave, é necessidade nua e crua infelizmente. Continuei andando e vendo aquele papel alcançar o chão. Fiquei pensando sobre o que a secretaria de meio ambiente e a secretaria de limpeza urbana acharia do fato. Revoltou-me saber que aquilo com certeza nem movimentaria o globo ocular dos tais secretários. A essa altura sentia o sol "esquentando" os neurônios. As pessoas andam tão apressadas, não têm tempo pra perceber que precisamos agir rapidamente pra salvar o que ainda nos restam. As idéias que me passavam naquele momento deixavam-me inquieta ao notar que inclusive eu, nada estava fazendo pra mudar aquilo. Andei por minutos e não encontrei uma tão sonhada lixeira, coisa tão simples quanto à ironia de como é tão difícil de ser encontrada. Isso por aqui é luxo, coleta seletiva então, pode apostar que dia desses alguém pergunta que bicho é esse. A propósito só para tomar nota, achei que essa palavra, "coleta seletiva" deveria estar em todos os lugares e ser colocada em prática - é uma alternativa ecologicamente correta que desviam do destino em aterros sanitários ou lixões, resíduos sólidos que poderiam ser reciclados. No Brasil segundo o professor Calderoni (autor do livro "Os Bilhões perdidos no lixo") existe coleta seletiva em cerca de cento e trinta e cinco cidades, é vergonhoso, mas é a verdade para um país de tamanha extensão.
Como disse o romance "Não verás país nenhum" de Loyola, "as colinas de lixo eram setenta e sete, todas habitadas". O fato é que há alguns anos atrás haviam por aqui algumas lixeiras um tanto criativas, em forma de frutas. Mas como manda a tradição, por aqui, de quatro em quatro anos os "donos" da cidade desfaz tudo que o primeiro fez, políticos. Isso é muita falta de respeito para com os cidadãos que pagam seus impostos pra ter o mínimo de beneficio em troca e nem isso temos. Concordo plenamente que a imagem do futuro é uma bota pressionando um rosto humano, aliás, nem teria argumentos pra discordar de Orwell diante da situação em que estamos vivendo.
Quanto atraso e quanta ignorância meu Deus! Quisera eu ter a ousadia dos primeiros ativistas que em 1971 saíram num barco pesqueiro para protestar contra os testes nucleares conduzidos pelos Estados Unidos. O que hoje falta é compaixão e amor pelo próximo e pela natureza, valores perdidos junto com a destruição de florestas, lagos, pela matança de animais, e poluição dos mares, enfim. Não é preciso tanta ousadia como eles tiveram, mas com um pouco mais de boa vontade podemos juntar-se a esta luta. Estava fazendo estágio numa Escola pública da minha cidade - Janaúba - MG numa turma de quinta série, e por mais que esta Escola seja considerada "escola modelo", não percebi até aquele momento a sensibilidade dos alunos e dos professores em relação à questão do meio ambiente. Parecia ser um tema independente da sala de aula, sempre ficava olhando aqueles alunos e imaginando como interagir meio ambiente e sala de aula. Tive a feliz idéia de fazer um projeto, pequeno pela sua abrangência, mas de grande importância pelo seu valor sentimental e de aprendizado. O tema tratado foi a reciclagem, "Lixo que vira brinquedo", era o mínimo que eu poderia ter feito. Pelo menos naquele mês que trabalhei com aqueles alunos no último semestre de 2007 dormi com a sensação de ter feito algo pela comunidade e porque não pela humanidade, porque o que eles aprenderam pode passar adiante. Podemos começar pelo simples ato de repassar o pouco que sabemos, para mim ainda que como leiga no assunto me senti orgulhosa do curso de que muitos desprezam, e do qual não vejo problema algum em fazer, ser professora de Geografia e essencialmente defensora do meio ambiente. Se poderemos fazer algo pelo meio ambiente? Sempre poderemos. O que nos falta é sensibilidade pra perceber que o problema não é meu nem seu é nosso.
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